Da tutela à proteção: o patriarcado penal e suas novas faces

Autores

  • Adriana Gomes
  • Vivian Zampa
  • Michele Penha
  • Marco Antônio da Silva

Palavras-chave:

Direito Penal, Patriarcado, Violência de gênero, Autonomia feminina, Tutela estatal

Resumo

O artigo analisa historicamente a atuação do Direito Penal brasileiro na construção e manutenção do patriarcado, demonstrando que, desde o período colonial até o presente, a legislação e as instituições jurídicas operaram para controlar o corpo e a sexualidade das mulheres. A pesquisa evidencia que, embora o discurso que sustenta esse controle tenha se transformado, de moral cristã para ciência positivista e, mais recentemente, para a retórica da proteção, a lógica de tutela permanece como eixo estruturante. A partir de autores como Bourdieu, Foucault, Scott, Saffioti e Mendes, demonstra-se que o sistema penal produziu distinções entre mulheres dignas de proteção e mulheres passíveis de punição, reproduzindo hierarquias de gênero, classe e raça. Conclui-se que reformas legislativas, como a Lei Maria da Penha, são importantes, mas insuficientes quando não acompanhadas de redistribuição de poder e de mudança institucional. A superação do patriarcado penal exige deslocar o foco da tutela para a autonomia das mulheres. 

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Biografia do Autor

Adriana Gomes

Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). Pós-doutorada em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em História Política (UERJ). Coordenadora do Laboratório de Estudos de Política e Ideologia (LEPIDE), que abriga o Núcleo de Estudos de História do Espiritismo (NUESHE) e o Núcleo de Estudos de Culturas Políticas, Religiosas, Jurídicas e Institucionais (NECREJI). Desenvolve pesquisas sobre História do Direito, espiritualidade e racionalidade jurídica, com ênfase nas relações entre poder, religião e punição no Brasil oitocentista. Membro da Comissão de Relações Institucionais Acadêmicas da OAB/RJ.

Vivian Zampa

Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (PPGH-UNIVERSO), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Editora da Revista Intellèctus UERJ. Doutora em História Política (UERJ), desenvolve pesquisas sobre Segurança Pública, autoritarismo, anticomunismo, Ditadura Civil-Militar, Políticas Públicas e Ensino de História. 

Michele Penha

Professora de Direito e Advogada. Coordenadora do Curso de Direito da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO, Campus Niterói. Doutoranda em História no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira, Mestre em História Social e Política do Brasil - Universidade Salgado de Oliveira. Pós-Graduada em Direito Privado pela UFF (Direito Civil e Empresarial) e Pós-Graduada em Direito Público pela Gama Filho. Especialista em Direito do Consumidor (FESUDEPERJ). Professora da Pós-Graduação em Direito Privado na Universidade Federal Fluminense -UFF, da Pós-Graduação da Universidade Salgado de Oliveira e da Pós-Graduação ESA/CBEPJUR/UCAM. Coordenadora do Curso de Pós - Graduação de Direito Civil e Processo Civil ESA/CBEPJUR/UCAM. Professora Universitária de Direito Civil e Processo Civil (teoria e prática), Direito Constitucional, e Direito Tributário da Universidade Salgado de Oliveira; Ex-Professora de Curso Preparatório OAB - OPD Concursos. Participante de diversos projetos de extensão e pesquisa, Advogada e Sócia do Escritório Cucco Braga Silva Advogados Associados. Experiência e sólidos conhecimentos em Direito Processual; Experiência na execução e acompanhamento de atos processuais em Tribunais Superiores. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Marco Antônio da Silva

Doutorando em Historia, Mestre em História pela Universidade Salgado de Oliveira (PPGH), concluído dissertação titulada "A Progressiva Democratização do Processo Penal Brasileiro e Seus Sistemas Processuais" . Especialista em Direito Penal, Direito Processual Penal, Direito do Consumidor e Responsabilidade Civil. Advogado Criminalista Sócio do Escritório - Marco Antônio da Silva Sociedade Individual de Advocacia, Presidente da Comissão de Seguranca Publica da ANACRIM (Associação Nacional dos Advogados Criminalistas) - Niterói;  Membro.do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB RJ, Membro efetivo do Instituto dos Advogados do Brasil; (IAB);  Presidente da Comissão Especial de Direitos Difusos da 16 Subseção da OAB/RJ; Autor dos livros "Processo Penal Resumido" e "Advocacia Criminal Teses para Revogação da Prisão Preventiva e Recursos em Matéria Penal". Experiência profissional: Diretor de Fiscalização do PROCON do Estado do Rio de Janeiro;  Assessor Jurídico da Secretaria de Estado de Proteção e Defesa do Consumidor; Assessor Jurídico da Secretaria de Casa Civil;  Assessor Jurídico da Secretaria de Governo; Diretor de Departamento da Secretaria de Justiça e Direito do Cidadão;  Professor de Pós Graduação lato sensu da ESA - UCAM- CBPEJUR e  da Universidade Veiga de Almeida; Professor de Pós Graduação lato sensu da Universidade Salgado de Oliveira, Professor do Curso de Capacitação dos PRONCONs Municipais realizado pelo PROCON Estadual. Atual Professor de Processo Penal, Direito Penal e da pratica jurídica da Graduação de Direito  da Universidade Salgado de Oliveira - Campus Niterói  RJ.

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Publicado

12.12.2025

Como Citar

Adriana Gomes, Vivian Zampa, Michele Penha, & Marco Antônio da Silva. (2025). Da tutela à proteção: o patriarcado penal e suas novas faces. Revista Eletrônica Da OAB-RJ, 1. Recuperado de https://revistaeletronicaoabrj.emnuvens.com.br/revista/article/view/784